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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Bibliografia Dispersa (2): Da Imagem de nosa Senhora do Castello da villa de Almada


(Em homenagem aos 40 anos do Centro de Arqueologia de Almada)

Fonte:
Frei Agostinho de SANTA MARIA, Santuário Mariano, Livro II, Título LXVI, Lisboa, Na Officina de António Pedrozo Galrão, 1707, pp. 437-442.
Publicado também em:


(Actual Imagem de Nossa Senhora da Assunção)

TITULO LXVI
Da Imagem de nosa Senhora do Castello da villa de Almada
NO anno em que ElRey Dom Affonso Henriquez tomou a Cidade de Lisboa aos Mouros, que foy no de 1147, tomou também as Villas de Palmella & Almada, com os mais lugares circumvisinhos a Lisboa. E já nesses tempos era Almada povoação de nome, & pelas utilidades, que della tiravaõ os Mouros, a defendiaõ: eraõ aquellas terras abundantes não só das cousas necessárias para a vida; mas de regalos; & já neste tempo tinha Castello & era cingida de fortes muros mas o valor del Rey D. Affonso tudo vencia, & com elle foraõ de todo lançados fóra os Mouros daquellas terras, & começáraõ a ser pacificamente possuidas dos Christãos. Alguns querem, que primeiro tomasse ElRey Almada, que Lisboa. O que dos nossos Escritores consta, he, que naquelle anno se tomàraõ todas assim o diz Fr. Antonio Brandão na Mon. Lus. p 3.l.10 cap 28.
A Matriz da Villa de Almada he dedicada à Rainha dos Anjos Maria Santíssima (como o são quasi todas as deste Reyno) debaixo do titulo do Castello, naõ só por que se festeja no dia de sua gloriosa Assumpção em que se canta o Evangelho: Intravit JESUS in quoddam Castellum; mas porque foy achada em os muros do Castello, a invocaçaõ também com este título. He esta Sagrada Imagem taõ pequenina que não excede a altura de hum palmo.
[p. 438]
A sua antiguidade he tão grande que excede a memória dos homēs, & não se sabe dizer em que tempo foy o seu aparecimento, & assim o que se refere delle por tradição he o que agora diremos.
Passando certo dia o Prior daquella Igreja (de quem não fìcou em memoria o como se chamava) por junto hum muro daquelle Castello, vio em hūa abertura, ou agulheiro do mesmo muro hum vulto tão divisar (sic.) o que fosse; mas levado da curiosidade, ou movido de soberano impulso, quiz ver o que aquillo era. E reconheceo ser hūa Imagem da Mãy de Deos, que ainda que pequenina na estatura, era muyto grande na soberana magestade que mostrava; porque nella se reconhece hum não sey què de divindade oculta. Ou pudèra corn o Esposo dos Cantares, que achára no aguilheiro daquella pedra, ou daquelle muro a divina Pomba Columba mea in for aminibus petrae. E tendo o Prior por favor do Ceo aquelle achado da Ave Santíssima, & merecia ser collocada em outro ninho muyto mais decente, a levou para a sua Igreja, & nella a colocou. Concorrendo a gente com a noticia, & fama do successo, se começàrão logo a manifestar os seus poderes, nas muytas, & grandes maravilhas, que obrava: que supposto (por curia, & negligência dos que então cuydavão daquela Igreja) senão authenticàraõ, a tradição afirma, que forão muytas, & ainda agora a experiencia publica muytas que obra em todos os que com viva fé a invocão.
He esta soberana Imagem da Senhora de excellente escultura & de madeyra incorruptível, como Cedro; foy estofada & encarnada & as roupas pefiladas das de ouro; mas como a sua antiguidade he muyto grande, já hoje se vê a pintura muyto amortecida. Porém os Priores daquella Igreja nunca quizerão consentir (& tiverão razão) que se lhe tocasse para que assim se conservasse fosse melhor a tradição de seu apparecimento
[p. 439]
Tem sobre o braço esquerdo ao Menino Deos que tambem mostra hua soberana magestade Ainda que as maravilhas & milagres que tem obrado esta Senhora são muytos não há sinaes nem memorias delles & dizem que a causa de as não haver foy não consentirem os Priores antiguos que na Igreja se puzessem payneis. Porèm todos os dias está Deos obrando por meyo daquella Santíssima Imagem & intercessão daquella Senhora toda misericordiosa de quē he retrato, milhares de prodígios & milagres assim no mar como na terra & principalmente em mulheres que tem partos difficulttosos por esta razão he a Madrinha geral de todos os meninos que nacem & a advogada de todo aquelle povo
Somente se vê naquella Igreja hum quadro que alli mandou por Dom Pedro Alvares da Cunha, Trinchante Mor que refere ser mercê que a Senhora fez a sua filha primogénita (de quem a Senhora he Madrinha) D. Lourença Francisca, livrando a de hūa gravíssima doença em que já se reportava por morta & a Senhora (que he a medicina do mundo como diz São Boaventura) Medicino Mundi, lhe deu milagrosa vida.
Outro grande & estupendo milagre nos refere o Prior que hoje he daquella Igreja o Licenciado Joseph Botelho de Lemos, que foy delle testemunha ocular. Refere que pelos annos de 1693 ou 94 estando-se concertando o tecto daquella Igreja (que he grande & de huma só nave & muyto antigua de abóbada de pedra na forma da Igreja do Convento de São Jeronymo de Belem) que he composto de lagēs de pedras miúdas, & por esta causa tão ariscado, que em se desunindo hūa se vem tudo abaixo; nesta occasião era tão evidente o perigo da passagem da Igreja para a Capella mòr, que só ao redor de hūa parede se passava; porque tudo o mais estava embaraçado [p. 440] com os andaimos, compostos de grandes mastros muyto fortes & sobre elles estava hum assoalhado taboas novas & grossas, em que se contavam seis dúzias, muyto bem leadas com cordas breadas & em cima deste outro andaymo que chegava ao tecto. Ainda assim a fé que todos tinhão na Senhora do Castello, os fazia tão ousados, que todos passavão sem algum temor, dizendo que na Casa daquella Senhora ninguem podia perigar.
Assim succedeo: porque durando a obra mais de hu mês & estando o tecto perigoso; & a gente sem nenhūa cautela, não succedeo cousa, que prejudicasse alguma pessoa; antes succedeo hum caso maravilhoso, que se não pode deixar de ter por hū evidentissimo milagre, & foy, que na ocasião em que se concertava o tecto da Igreja pegarão de hum dos payneis da abobada, que estava perigoso & as pedras delle mais desunidas, que serião trinta da grossura de quatro dedos & de largura de dous palmos em quadro. E julgando os Mestres que estava seguro por terem unido as referidas pedras com palmetas de pao, mandàrão a dous aprendizes desmanchar os andaymos, que tinhão de altura ao menos sessenta palmos; neste tempo hum dos moços ficou no andaymo de baixo, que era o mayor & outro foy ao de cima, & querendo com hum martello recolher hūa palmeta, que não estava bem metida, por estarē as pedras em vão, cahirão todas as daquelle paynel que erão as trinta referidas, com tal impeto & impulso, que quebràrão os mastros, as cordas, & as taboas, que tudo era muyto forte, & cahindo no pavimento da Igreja quebràraõ as campas das sepulturas, que erão grossíssimas & estavão assentadas em terra firme. E sendo a fábrica de que se compunhaõ os andaymos de diversos & muytos materiaes & as pedras na quantidade referida, & a altura da Igreja imensa, vierão entre todas estas cousas os moços ao chão, & ambos ficarão [p. 441] ilesos, sem que padecessem nem huma leve arranhadura. E só a hū delles se lhe rompeo hua abba da casaca, que era velha.
Este successo assim referido não podia succeder naturalmente; mas na opinião de todos os que virão, & souberão o modo como succedeo, o julgarão por hum singular & prodigioso milagre da Senhora do Castello; & assim o jura o mesmo Prior que nos fez esta relação.
Tem esta Igreja hua Capella mòr magestosa & nella se vê hum retábolo dourado & no meyo huma tribuna em que está collocada sobre hū trono outra Imagem grande; a quem também dão o título do Castello & da Assumpção. He de talha & estofada corn o Menino JESUS sobre braço esquerdo obrada na mesma forma da milagrosa imagem da Senhora pequenina & apparecida; & sem dúvida, alem de o affirmar a tradição se mandou fazer para que estivesse publica & exposta à devota veneraçao dos fiéis visto que a Imagem da Senhora milagrosa estava occulta à sua vista. Tambem he muy to magestosa & com ella se tem muyta devoção.
Tem a Senhora do Castello hūa nobre & antiquissima Irmandade que goza de hum grande thesouro de graças, & indulgencias que lhe concedèrão os Summos Pontifices. He Juiz della o filho do Conde de Assumar & o forão sempre fidalgos da primeyra nobreza. Festeja se quatro vezes no anno nas suas festas principaes; porèm na de sua Assumpção, he mayor a celebridade. Tem a Senhora rendas sufficientes em fóros & vinhas & he a Padroeira da Villa de Almada & seu termo, & como tal invocação todas os horas os moradores della.
A Imagem pequenina, por milagrosa & apparecida que póde bem ser fosse escondida pelos Christãos, antes que os Mouros entrassem naquella Villa [talvez na reconquista de Almançor de 1191] na qual resplandeceria em milagres & a Divina Providencia a guardou [p. 442] & defendeo manifestando a depois ao Prior daquella Igreja, para que fosse o presídio, o amparo, & a protecção della; merecia estar collocada em hum sacrário de ouro, adornado de diamantes & pedras; porèm há havido tão pouca attenção para se tratar toda aquella veneração, & respeyto que lhe he devido que não tem lugar naquella casa que he sua.
Esta Santa Imagem anda sempre pelas casas dos enfermos, & na ocasião em que se nos fez esta relação se achava em casa do Trinchante mòr Dom Pedro da Cunha [Quinta de São Lourenço, Palença de Baixo].
E quando vem, a poem aonde querem & muytas das vezes se vê na Sacristia, sem veneração algūa. Porque como ha naquella Igreja outra Imagem grande que está collocada em a tribuna da Capella mór como fica dito; serve somente a Imagem da Senhora antigua, & milagrosa de andar fazendo visitas pelas casas, consolando os enfermos, & affligidos; sem atenderem os Priores daquella Igreja, a que a poderáõ furtar; porque andando de mão em mão facilmente podia ser. E que desculpa podem dar os Priores a hum grande descuydo & desatenção?
E assim rogo a algū dos Priores daquella Igreja, se chegar a ler esta relação, remedee esta falta, (porque a Senhora do Castello não castigue) mandando collocar a sua Imagem em lugar aonde seja venerada como se vem as Imagēs da Senhora do Cabo, da Senhora da Merceana, da Senhora das Virtudes, da Senhora das Brotas, da Senhora dos Remédios de Lisboa, que todas estão em sacrarios com vidraças & com summa veneração. Não permitindo que andem mãos de quem não trate com a veneração, que se lhe deve; & que impida quanto puder o sahir fóra da sua Igreja; porque para a devoção dos doentes, & enfermos, bastarà que se lhes conceda, ou hum manto, ou huma coroa da mesma Senhora.


Autor e Licenças:
Frei Agostinho de Santa Maria, Ex Definidor Geral da Congregação dos Agostinhos Descalços deste Reyno, & Natural da Villa de Estremoz
Editado em Lisboa, na Officina de António Pedrozo Galrão, com todas as licenças necessárias, no ano de 1707.
Dedicatória a Nossa Senhora de Copacavana, escrita em Lisboa, Convento do Monte de Olivete, Fevereiro, 2. de 1704.
Censura do M.R. Padre Fr. Agostinho das Mercês, no Convento de Nossa Senhora das Mercês da Cidade de Évora, em 11 de Setembro de 1702.
Censura do M.R. Padre Fr. José dos Mártires, no Convento de Nossa Senhora das Mercês da Cidade de Évora, em Outubro, 21. de 1702.
Com a Licença de Fr. Manuel de S. José, Geral Vigário da Real Congregação dos Descalços de N. Padre S. Agostinho de Portugal. Real Convento de N. Senhora da Conceição do Monte de Olivete em 23 de Agosto de 1703.
Aprovado por Fr. Manuel de S. Joseph e S. Rosa, Censor do Santo Ofício. Lisboa, S. Francisco da Cidade, em 9 de Outubro de 1703.
Aprovado por Fr. António das Chagas, Censor do Santo Ofício. Lisboa no Convento da Santíssima Trindade, aos 29 de Outubro de 1703.
Licenças de Carneiro / Moniz / Hasse / Monteyro / Ribeiro. Lisboa, 30 de Outubro de 1703.
Licença de Fr. Pedro, Bispo de Bona. Lisboa, 1 de Dezembro de 1703.
Aprovado no Paço por Sebastião de Mattos. Congregação do Oratório de Lisboa em 13 de Junho de 1704.
Licenças de Oliveira / Vieyra / Lacerda / Carneiro. Lisboa, 28 de Junho de 1704.
Licença, visto estar conforme o original, de Carneiro / Hasse / Monteiro / Ribeiro / Rocha / Fr. Encarnação. Lisboa, 7 de Outubro de 1707.
Licença de Fr. Pedro, Bispo de Bona. Lisboa, 8 de Outubro de 1707.
Taxão este Livro em 9 tostões em papel. Duque / P. Oliveira / Costa / Andrade / Botelho. Lisboa, 12 de Outubro de 1707.



RUI M. MENDES
Caparica, 1 de Novembro de 2012

Notas históricas:
As imagens aqui descritas, quer a Nossa Senhora grande, quer a  pequena já existam no século XVI, quando a Igreja do Castelo foi visitada pela Ordem de S. Tiago, quer em 1527:
- No «altar-moor: o qual he de huma lagea sobre piares de pedra e tem tres degraaos de pedraria e em cima dele está huma imagem de Nosa Senhora de vulto de paao com ho minino Jesu no colo e hum retabolo pequeno de Santana de imaginava todo dourado e sam as paredes da dita capella mor de pedra e caal e o teito de cima he forrado de bordos muito bem obrados e amte o dicto altar moor esta huma alampada com sua bacia d'arame»; e
- No «corpo da dita igreja -silicet- o arco do cruzeiro he de pedrarya e na parede do cruzeiro da bamda do norte esta hum altar d'alvenaria com seu degrao de pedraria e em cima dele esta hum retabolo de matiz bom com a imagem de São Pedro no meo de cuja envocação he o dicto altar e as imagens de Sam Bemto e São Paulo e da Madalena e São Francisco e pelo pe do dito retabollo estão outra imagens de samtos e huma imagem pequena de Nosa Senhora de vulto de pao com o minino Jesu no colo»; e
Quer em 1534, período em que a Igreja do Castelo, parece, se andava refazendo, pois nesse ano de 1534 já nela se encontravam colocados um vitral novo na parede norte da Capela mor e um retábolo dourado e painel novo no Altar mor:
- «estão duas frestas abertas novamente na dita capella [mór] huma de pedrarias da banda do sul e outra d'allvenaria da parte do norte em a qual esta huma vidraça com ha immagem de Nossa Senhora [] e na do sul esta hum pano emcerado»;
- «está agora na dita capella hum retabollo dourado que he mayor que o alltar hum pallmo de cada parte e tem seu guarda po e guirllanda por cima todo d'ouro e d'ahi e no meyo delle esta huma immagem de Nossa Senhora de vullto [com] o menino no collo e da parte de evangelho a immagem de Nossa Senhora da Saudação pintada e da parte da epistolla outra immagem de Nossa Senhora d'Assunção o qual retabollo nos diseram que custara em branco quarenta mil reaes os quaes se pagaram a custa de Dom Jorge Pimentel comendador que foy desta comanda e a pintura custou outros quarenta mil reaes que pagou Fruitos de Goes por sua devação e esta no meyo do dito retabollo em cima do alltar feito hum sacrario muito bem obrado e rico e nom esta nelle o sacramento sendo mandado na visitação pasada que estivese ahy ao que provemos como se adiante achara»;
(PINTO, 2001, 202)

Segundo registará mais tarde Damião de Goes, alguns deste ornamentos foram encomendados directamente por ele na Flandres, a pedido do seu irmão Frutos de Goes, residente em Almada:
- «Item: — mãdei stando em frandes pêra ha Egreiga de nossa sõra do castello dalmada hua vidraça grande em q está pintada ha anuncjação de nossa snra».
- «loguo quomo vim de frandes no anno de 1545 (sic), dei a meu irmão fructos de goes que deos haia hu retabolo grade cõ portas co ha imagem de nossa snra pintada co seu bento filho no collo, ha qual creo q elle deu a egreija de nossa snra do castello de almada onde tem sua sepultura».
(HENRY, 1998, 155)

Com o terramoto de 1 de Novembro de 1755, caiu a igreja do Castelo conforme documentam as Memórias e Registos Paroquiais da Paróquia do Castelo:
«Em esta villa de Almada caio de todo a Iggrª do Convento de S. Paulo de Religiozos Dominicos, a Iggr.ª de N.ª Snr.ª de Assumpção cita no Castello, ficando nestas duas igrejas mortas perto de cem pessoas, e no Castello foi tão grande a impressão, q as frotes torres delle, e a nobre caza de Residência, q nelle tinhão os Priores, ficou tudo cahido e arruinado; na villa, excepto duas ou três moradas de cazas, todas as mais ficarão, ou cahidas, ou gravemente arruinadas, infelicidade que padecerão quazi todos os edifícios nobres q havião assim ? em a freg.ª de Caparica, como as mais do destricto desta v.ª. As pessoas que fallecerão assim na Iggr.ª do Castello, como em S. Paulo pertencentes a esta minha freg.ª são as seguintes: Em a Iggr.ª do Castello: / O Pe. António Frr.ª Peres, Thezour.º e Icónomo da Iggr.ª / O Pe. Joze Henriques Madr.ª, Icónimo da mesma / Jozepha M.ª, m.er de António Franc.º carpintrº / Madalena M.ª, m.er de George Pinto, trabalhador / A May do Thezourº da freg.ª de S. Thiago, M.ª da S.ª ? Dias / E do mesmo duas filhas menores / Manoel Joze da Costa, cazado com D. Izabel / João Duarte, homem solteiro, fazendeiro / Ignácia M.ª, m.er de João Roiz o Bulla ?» (Almada, Castelo, Óbitos, Livro 5, f. 53-55v)
«A Matriz desta Vila com a invocação de Nossa Senhora da Assunção situava-se em o Castelo, obra antiga, nobre, de abóbada sem nave alguma, e toda de pedraria, a qual de todo se arruinou e demoliu com as casas dos Priores em o Terramoto do primeiro de Novembro de 1755, e no mesmo estado se conserva até o presente; e na mesma forma as torres e muralhas do Castelo que padeceram igual ruína» (ANTT, Memórias Paroquiais, volume 3, n.º 5, fls. 65-66 – apud FLORES, 2009, 38)

Em 1758 foi a Imagem de Nossa Senhora da Assunção, que se mandou reformar em Lisboa, trasladada para a Igreja do Espírito Santo, que então servia de Paroquial do Castelo, conforme nos relata um dos livros da sua Irmandade:
«Sendo arruinada pelo Terramoto do primeiro de Novembro do ano de 1755 a Freguezia de Nossa Senhora da Assunpção do Castelo foy a Imagem da Mesma Senhora a unica que chegou inteyramente a destruir-se achando-se a sua veneranda cabeça debaycho das minas quando se desentulhou a Capela Mor da dita Igreja e freguesia cuidarão logo os Irmãos da Meza da dita Senhora da Assumpção em mandar fazer imagem nova que com essa se fêz servindo para ella a referida cabeça, e no dia 13 do presente mês de Agosto de 1758 foy exposta depois de benzida pontifical e solemnemente pelo Excellentissimo e Reverendíssimo Arcebispo de Lacedemonia na freguesia de Nossa Senhora dos Anjos da cidade de Lisboa, donde sendo conduzida em procissão, no mesmo dia 13 de tarde pela sua irmandade junta com as mais que assistiram a este acto, foy colocada nesta Igreja do Espírito Santo aonde se acha de presente a Freguesia da mesma Irmandade.
Foy a referida procissão solemnisissima e vistoza tanto na cidade de Lixboa onde foy innumeravel o concurso de gente que a acompanhou, mas também na passagem do mar por serem muitas as embarcações, que ornadas com suas bandeyras e galhardetes no mesmo mar acompozeram [fl. 3v.] e assim mesmo sucedeu nesta vila de Almada por que desembarcando-se a Senhora no Porto de Cacilhas, cujas prayas estavão cobertas de gente, foy trazida com indiziveis allegrias pelas ruas, que daquelle porto vem emdireitarão para esta dita Iggreja, as quais se achavam ornadas com he costume na procissão do Corpo de Deus.
No dia 14 se cantou missa solemne com musica e foy o orador do dito dia Meretissimo Reverendo Padre Frei Ignacio de Jesus [...] religioso da província da Arrábida, de tarde se cantaram vésperas, e a noite matinas, depois das quaes houve fogo, e algum delle de vistas. No dia 15 houve também Missa com a mesma solemnidade e foy o orador o Meretissimo Reverendo Padre Manoel de Jesus, presbitero de habito de São Pedro, e de tarde se cantaram vésperas, como no dia antecedente. Por esquecimento deixou de se dizer assima no lugar a que pertenciam e que à chegada da procissão a esta dita Igreja se cantou solemnemente o Te Deum Laudamus, e que as pessoas desta vila em três noites successivas ornaram com luminarias as ruas della. Em todos os dias referidos assistirão [fl. 4] os Religiosos de São Domingos desta vila, a Nobreza della, e grande concurso de povo. E para que non fique em esquecimento o referido, e a todo o tempo conste fiz neste livro a presente declaração, e eu Padre Francisco Leitão de Figueiredo Escrivão da Mesa da Irmandade da mesma Senhora o escrevi e assignei».
AHMA, Irmandade de Nossa Senhora da Assunção do Castelo, Constituição e regulamentação, Livro de Eleições e Termos de Posse, Lv. 1 (1758-1808), fls. 3-4, n.º de registo: 3036. || […] Fl.31
(Transcrito de Almada na História, N.º 13-14, 2007)

Os serviços paroquiais, imagens e Irmandade de Nossa Senhora da Assunção foram em 1776 para a Igreja de S. Paulo, que havia sido comprada por 6:400$000 réis pela Ordem de S. Tiago aos Dominicanos, passando a servir de Paróquia do Castelo até 1835, ano em que foi extinta a freguesia (Portaria do Cardeal Patriarca de Lisboa de 28 de Novembro).

A Imagem de Nossa Senhora da Assunção permaneceu na Igreja de S. Paulo durante o século XIX e XX, mesmo depois de em 1934 o P. António Falcão a ter comprado, em hasta pública, com o antigo convento, oferecidos depois ao Cardeal Cerejeira para aí edificar um seminário diocesano. A Igreja foi integrada no Seminário, sendo aberta ao público para a missa dominical, sendo que a imagem de Nossa Senhora da Assunção, que primitivamente se encontrava no altar mor, passou a ocupar o altar lateral da de Nossa Senhora do Rosário, aqui ficando até ser transferida para a nova Igreja de Almada, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, no ano de 1969.

Fontes:
FLORES, Alexandre M., Vila e Termo de Almada nas Memórias Paroquiais de 1758. Separata da Revista Anais de Almada, n.º 5-6, Almada, [Ed. Autor], 2009.
HENRY, William John Charles, Ineditos Goesianos, Lisboa, V. da Silva & Ca., 1898, p. 155

ANTT, Ministério do Reino, Colecção de plantas, mapas e outros documentos iconográficos, n.º 21 – pub. FERNANDES, Mário, "Documentos relativos à história de Almada : A Igreja de N.ª Sr.ª da Assumpção", in Al-madan, II Série, n.º 2 (pp. 111-115), Julho de 1993; vide também: MENDES, Rui M., «Património Religioso de Almada e Seixal: Ensaio sobre a sua história no século XVIII». Publicado na Revista Anais de Almada, 11-12 (2008-2009), Almada, Câmara Municipal de Almada, 2010, pp. 67-138, pub.
http://www.academia.edu/640421/Patrimonio_Religioso_de_Almada_e_Seixal_Ensaio_sobre_a_sua_historia_no_seculo_XVIII
PINTO, Rui Miguel Costa, «As Visitações da Ordem de Santiago em Almada no séc. XVII», in Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Vol. 119, Nº. 1-12, 2001, pp. 171-224.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Arquivo de Almada (2): O Lazareto de Lisboa em 1897, por António Frazão


Divulgo mais um interessante artigo publicado em 1897 no Semanário Branco e Negro, desta vez da autoria de António Frazão. Trata-se de uma descrição muito pormenorizada e bem documentada fotograficamente do antigo Lazareto de Lisboa, situado como se sabe junto à Torre Velha de S. Sebastião da Caparica.
As imagens são as do texto original (embora não na mesma ordem) e incluem uma inédita fotografia da Capela do Cemitério do Lazareto edificada com o cemitério em 1886 e que, estando em ruínas, foi desmantelada para os seus materiais serem aplicados na construção da Capela do Cemitério do Monte de Caparica em 1935.
O texto trás a ortografia original, por isso não estranhem os «erros ortográficos» ...

«Lazareto de Lisboa», Branco e Negro. Semanário Illustrado, N.º 60, Ed. 23.5.1897

LAZARETO DE LISBOA – Doca; recinto dos armazéns; lazareto velho

«Tinha ficado em Lisboa para, no dia seguinte, acompanhar o meu amigo S. n'uma visita ao lazareto, onde ha perto de oito annos sou empregado.
Pelas 10 horas da manhã, bem almoçados, chegavamos a Belem e ali embarcámos no bote do Cegueta, do Porto Brandão. O meu companheiro, a principio receioso da travessia em catraio, foi-se pouco a pouco animando e a breve trecho tinha-se habituado ao balouçar cadenciado do barquito, que seguia ligeiro, impellido pela aragem fresca, mas agradavel, do norte.

LAZARETO DE LISBOA – Vista geral do lado do Tejo

A' medida que nos approximavamos, iam-se tornando cada vez mais distinctas as feições do lendario monstro, besuntado a ocre, morbidamente reclinado sobre as verdejantes collinas onde outrora existiu a fortaleza de S. Sebastião, da Torre Velha, monstro hoje escasso de forças, mercê dos repetidos ataques de que tem sido alvo, sem de todo o derrubarem, espantalho dos viajantes, dizem, e terror do commercio, mas não poucas vezes, e ainda em epocha que não vae longe, quando as barbas do visinho fumegam, por todos considerado seguro baluarte erigido na margem sul do Teio para defender o paiz das invasões epidemicas.
Atracámos ao caes de Porto Brandão e tomámos pelo aterro que substituiu a ponte de madeira, que d'aquella povoação dava passagem á parte do lazareto onde se acham situados, á beira-mar, os armazens-estufas para a desinfecção de mercadorias, quer brevemente, serão desembarcadas n'uma solida ponte de ferro, não ha muitos mezes acabada de construir.

LAZARETO DE LISBOA – Armazém de desinfecção pelo acido sulfuroso

O caes, a pequena distancia, para o qual abrem tres portões de ferro que dão ingresso aos armazens e dependencias da alfandega, é pouco espaçoso para o actual movimento. As escadas de pedra, acanhadíssimas, torna-se, por vezes, difficil a atracação dos botes e fragatas que a miude entram na doca, o que é devido a ter esta uma abertura, exposta ao norte, desproporcional ás suas dimensões, não offerecendo por esse facto o abrigo que seria para desejar.
LAZARETO DE LISBOA – Avenida e chalet da vaccina

No redente de leste, do caes, acha-se uma pequena barraca, convenientemente adequada ao serviço de vigilancia, d'onde os guardas de saude podem observar o que se passa em qualquer ponto do caes ou do aterro. Em dias de movimento de passageiros e de bagagens o serviço de policia é coadiuvado pelas praças do destacamento estacionado no lazareto.
Do lado opposto á referida barraca, ao sopé de uma rocha elevada, existe uma casa, tendo no seu maior comprimento seis janellas e uma porta, de um só pavimento, onde durante muito tempo esteve a secretaria e o archivo que, ultimamente, se acham installados, aquella nas proximidades do parlatorio, e este em parte do amplo armazem de arrecadação de mobilia mandado edificar no antigo terraço das quarentenas.
Deixámos o caminho que circumda, do poente, o lazarelo, e sóbe ao quartel do destacamento, e entrámos no recinto chamado dos armazens, onde se acham installadas, além da delegação aduaneira e respectiva casa do despacho, as estufas para desinfecção de bagagens pelo acido sulfuroso, as de Geneste & Herscher para desinfecção pelo calor, e as ventoinhas applicadas nas beneficiações por ventilação mechanica.


LAZARETO DE LISBOA – Estufas Geneste & Herscher

Os melhoramentos introduzidos no serviço de desinfecção e de reverificação de bagagens datam de poucos annos.
E Para se avaliar dl sua grande importancia basta dizer que chegando muitas vezes ao lazareto, afim de serem beneficiadas, bagagens de trezentos e mais passageiros, no curto espaço de seis ou sete horas são aquellas descarregadas, abertas, desinfectadas e verificadas pela alfandega, levando-as os seus donos para Lisboa no mesmo dia em que desembarcam, o que lhes evita incommodos e despezas.
Uma escadaria ladrilhada á moderna conduz dos armazens ao lazareto velho, estabelecido na antiga fortaleza de S. Sebastião, e ao local onde foram construidos os edificios vulgarmente conhecidos por quarentenas.
A ascenção é longa, porém, a escada suave, vendo-se, nos pontos em que tem mais largura, alguns alegretes artisticamente matisados de flores.
A' medida que subiamos, o meu amigo soltava exclamações admirativas, causadas pela belleza do panorama, que se torna verdadeiramente encantador observado do terreiro do lazareto velho. N'este mesmo plano fica a enfermaria de doenças suspeitas e a pequena capella do martyr S. Sebastião, cuja imagem, primorosamente esculpturada em madeira do Brazil, se ostenta, presentemente, na capella do parlatorio reservado aos visitantes.
A enfermaria de doenças suspeitas, a que tambem dão o nome de hospital, acha-se completamente isolada das outras dependencias do estabelecimento. E' um edificio que satisfaz cabalmente ao fim a que é destinado. Foi alli que, ha annos, conservaram incommunicavel, durante uns dias, o professor José Julio Rodrigues, fallecido da doença que motivou a sua estada no lazareto e sobre cuja natureza se suscitaram duvidas.
Encontra-se, ao sahir do lazareto velho, um grupo de chalets de madeira, revestidos de argamassa, onde cumprem os impedimentos os carvoeiros e estivadores vindos de bordo das embarcações fundeadas no quadro das quarentenas.

LAZARETO DE LISBOA – Edifício das quarentenas

Um caminho estreito, chamado da ronda, cerca o vasto recinto das novas edificações, dispostas em fórma de leque, no vertice do qual está a cosinha, que, pelas rodas, faz chegar a comida ao interior das quarentenas. O magnifico fogão, que custou mil libras esterlinas, podendo n'elle cosinhar-se para mais de mil hospedes, consta-me não ter rival áquem dos Pyrineus.
Destinaram a sala de visitas o pavimento superior á cosinha. Denominam-n’o parlatorio. E' de fórma semicircular e illuminado por vinte e uma bem rasgadas janellas, fronteiras a outras tantas d'onde os quarentenarios recebem as pessoas que os visitam.
Ao centro d'esta sala está a capella da Senhora do Bom Successo e n'ella se celebra missa, aos domingos e dias santos, que póde ser ouvida pelas pessoas impedidas em qualquer das quarentenas.
Fomos ao interior d'estas ultimas, cada uma das quaes constitue uma não pequena hospedaria, e o meu amigo teve occasião de ver de perto ser inexcedivel o asseio e magnifica a disposição dos utensílios; não obstante, achou muitos d'elles inferiores e pouco em harmonia com as taxas pagas pelos quarentenarios.
As salas de jantar, os quartos e as camaratas recebem luz a jorros, sendo convenientemente arejados.
Os pateos interìores ajardinados com gosto; os exteriores, deitando sobre o rio, são uma distracção para os quarentenarios, pela vista surprehendente que d'alli se disfructa, fazendo-lhes passar quasi despercebidas as horas de captiveiro a que são obrigados pelas prescripções sanitarias.


LAZARETO DE LISBOA – Capella do cemitério

Antes de nos dirigirmos ao cemiterio, que nada tem de notavel a não ser o magnifico ponto de vista, fomos á lavanderia quer em ponto pequeno, é das melhores que existem, honrando muito o empregado que dirigiu os trabalhos e o serralheiro mechanico que os executou.
Annexo ha um pateo onde foram collocadas capoeiras, sempre providas de excellentes gallinaceos e não inferiores palmipedes.

LAZARETO DE LISBOA – Caes
Um pouco mais adeante entra-se, por um portão de ferro, para o guartel do destacamento que, embora o considerem pouco espaçoso sempre dá alojamento a mais de cem praças.
Depois de termos tomado o folego junto á casa de arrecadação do material para extincção de incendios, dispusemo-nos a subir a ingreme ladeira que dá accesso ao cemiterio, o mais recente de não sei quantos que existem na inactividade e eram, como este é, exclusivamente destinados aos fallecidos sob impedimento.
A impaciencia em admirar um dos mais soberbos panoramas obrigou-nos a ser rapidos na ascenção e foi fatigadíssimos que lográmos chegar ao banco collocado no jardimzito proximo ao cemiterio.
D'aquella eminencia tudo que nos cerca constitue um deslumbrante quadro, que os olhos procuram abranger com sofreguidão. Lá ao longe, na nossa frente, desenrola-se a esplendorosa tela, em que percorremos, n'um relance, a margem do norte, desde os cachopos que servem de couraça á cidadella de Cascaes até aos pesados torreões do Terreiro do Paço.

LAZARETO DE LISBOA – Sala de jantar de I.ª Classe

DR. ANTÓNIO HOMEM DE VASCONCELLOS
Inspector do Lazareto
Junto a nós, á direita revestida de vegetação luxuriante. a quinta da Azenha, hoje dependencia do lazareto, terminada ao nascente pelo valle que corre da Fonte Santa a Porto Brandão; á esquerda os fertilissimos vinhedos da Chanoca e da Paulina, expondo os esmeraldinos pampanos ao calor vivificante de um sol primaveril.
N'uma perspectiva caprichosa serpeia a estrada, orlada de eucalyptos, destacando-se d'um fundo de verdura o elegantissimo chalet da vaccaria (sic).
No extremo norte da ridente avenida, o pittoresco agrupamento das edificações do moderno lazareto, telhados marselhezes, de encarnado vivo, apresentando o aspecto de amphitheatro, airosamente dispostas quasi á beira da rocha sobranceira ao Tejo, em que, de onde em onde, brilha a alvura das velas dos barquinhos que fazem carreira para Belem.
Custou-me arrancar d'ali o meu amigo, embebido como estava na contemplação do singular espectaculo.
Depois de jantarmos, S. quiz regressar a Lisboa, por Cacilhas, pois não teve coragem, ao ver refrescar o tempo, de se aventurar a nova viagem até Belem.
No trajecto, em tipoia, pediu-me varias informações relativas á organisação do lazareto.
Disse-lhe quanto sabia, não occultando que, devido ao talento e superior tacto administrativo do sr. dr. Antonio Homem de Vasconcellos, inspector d'esta repartição sanitaria desde 1879, se deve a boa ordem que preside a todos os serviços, como tiveram ensejo de verificar o dr. Proust e outras summidacles scientificas que, em diversas epochas, teem visitado o lazareto, que classificam de estabelecimento modêlo e um dos primeiros d’ Europa e da America.
A competencia do sr. dr. Antonio Homem evidenciou-se, sobretudo, na maneira acertada por que tem gerido a hospedaria do lazareto (a cuja arrematação não concorreram particulares receiosos de perder dinheiro), da qual o inspector d'aquelle estabelecimento, por uma sabia administração, tem conseguido tirar importantes lucros para o estado.
Como empregado subalterno seria ousadia da minha parte referir-me com elogio a um superior, se o que acabo de expôr não fosse um extracto, embora ligeiro, do muito que se diz em abono de tão zeloso quanto prestante funccionario.
Caparica, 26 de abril de 1897.
ANTÓNIO FRAZAO.

Transcrito por
RUI M. MENDES
Caparica, 1 de Agosto de 2011

ANEXO: Mapa da zona do Lazareto da Torre Velha, no Porto Brandão, 1904

 

Arquivo de Almada (1): Almada em 1897 por Luiz de Queiroz

Divulgo um interessante artigo de cariz monográfico sobre Almada publicado no já longínquo ano de 1897, na publicação Branco e Negro, da autoria do almadense Luiz de Queiroz. As imagens são as do texto original excepto a da estátua de D. Álvaro de Abranches e a do interior da Igreja de S. Paulo publicadas também na mesma revista mas noutros números. O texto trás a ortografia original, por isso não estranhem os «erros ortográficos» ...

Viagens no Paiz (XXI): Almada
In Branco e Negro. Semanário Illustrado, N.º 56, Ed. 25.4.1897


Almada – Uma vista do Castello

«ALMADA, em frente de Lisboa, assente na margem esquerda do nosso formosíssimo e poético Tejo, d’onde se descortinam os mais vastos e surprehedentes panoramas que o touriste póde encontrar por esse paiz fóra, é, sem dúvida, uma das mais pittorescas villas da vasta província da Exremadura.
Sobre a sua fundação e etymologia, correm as mais desencontradas das opiniões, porém, a que nos parece mais verdadeira, é de ter sido edificada pellos mussulmanos quando occuparam a Península no século VIII, pois em 186o n'umas escavações que se fizeram no passeio do Castello, encontraram-se subterradas muitas talhas mouriscas, nas quaes os mouros costumavam guardar, em tempos de invasões, os cereaes e outros productos agrícolas. A etymologia mais acceitavel, para não estarmos a citar a opinião de abalisados escriptores, é a do immortal historiador Alexandre Herculano que diz, no seu bello monumento a História de Portugal, que Almada vem de Almadan, nome este que se dava às palhetas d'ouro que o solo do mar lançava nas suas praias. D. Diniz, o rei Poeta, tinha uma corôa e um sceptro feitos d'ourô aqui achado e D. João III um sceptro de igual procedência.
Almada que foi conquistada aos mouros pelos soldados do notável guerreiro D. Affonso Henriques no dia 24 de junho de 1147, teve diversos foraes dados respectivamente por D. Affonso I em Coimbra em março de 1170; D. Affonso II em Santarém em dezembro de 1217 que confirmou o primeiro e D. Manoel em Lisboa a I de junho de 1513. D. Sancho I também lhe deu foral e fez doação d'ella aos cavalleiros da ordem de S. Thiago, por carta assignada em Lisboa no mez de agosto de 1190. Mais tarde, em 1297, D. Diniz incorporou-a nos bens-da corôa, dando em troca aos alludidos cavalleiros as villas de Almodôvar, Aljezur e Ourique.
Em 1190, quando o terrível Jacob, imperador de Marrocos, entrou em Portugal com um poderoso exército commandado por elle, pelos reis de Sevilha e Córdoba, Almada foi, como muitas outras povoações, saqueada e destruída ficando em um montão de ruínas, pelo que teve de ser reedificada por mandado de D. Sancho I, que então governava os destinos d'este outrora tão florescente paiz.
D. João I de Castella, que em 1384 invadiu Portugal com uma grande parte do seu exército, com o fim de se apossar do throno, ao qual se julgava com direito, por morte de D. Fernando, pôz a Almada, durante mez e meio, um apertadissimo cerco em que os habitantes deram provas de muita abnegação e patriotismo, pois escasseando os poucos alimentos de que dispunham, viram-se na necessidade de amassar o pão com vinho, porém, só se renderam quando o Mestre de Aviz lhes mandou dizer por um filho d'esta villa que atravessou o Tejo a nado, que se entregassem, e se assim não fosse, por certo prefariam morrer pela patria a entregar Almada aos castelhanos,
Mezes depois, quando D. João I de Castella se viu forçado a abandonar a idea da conquista de Lisboa, porque os seus soldados iam rareando, ainda não contente com o renhedíssimo assedio que pôz a Almada, não podendo deixar aqui guarnicão sua e para mais revoltar os seus heroicos habitantes, confiou a estes a defeza da villa, mas levando como refens os filhos dos seus principaes moradores, creancas de 3 a 4 annos de idade, e assim «os almadenses imitavam o sacrificio de Bruto, e entregavam á colera e á vingança do rei de Castella os tenros e innocentes filhos.»

ALMADA – RUA DIREITA

Esta villa que pertenceu aos inglezes, a D. Leonor Telles e á casa de Bragança, honrou se por vezes com a visita de alguns nossos monarchas.
Almada e cabeça de comarca e de concelho e compõe-se de trez freguezias com 15:030 habitantes.
Possue alguns edificios dignos de menção, d'entre os quaes destacaremos os seguintes: A egreja do convento de S. Paulo, celebre pela sua importancia historica, de cujo interior o Branco e Negro publicou há dias uma esplendida fotogravura, foi fundada em 1562 pelo insigne theologo e linguístico D. frei Francisco Foreiro, lente de theologia da universidade de Coimbra, pregador regio da côrte de D. João III e reformador do Missal e Breviario Romano, fallecido no seu convento em 10 de janeiro de 1581 e jaz n'uma tosca sepultura ao centro da capella-mór.
EGREJA DE S. PAULO - INTERIOR

Este templo é notavel não só nela obra de talha dos seus altares, como também pelos magníficos azulejos que o ornamentam representando factos allegoricos da vida de S. Domingos, a cuja ordem pertencia,
Destruído pelo memoravel terremoto do dia 1 de dezembro (sic.) de 1755, no momento em que a egreia se achava replecta de fieis que ficaram sepultados nos escombros, foi pouco depois reconstruido.
N'esta egreja dormem o somno eterno dois homens celebres nas armas e lettrâs pátrias: D. Álvaro Abranches da Camara, um dos vultos mais prestidiosos da gloriosa revolução de 1 de dezembro de 1640, e D. Francisco de Almeida Mascarenhas, distincto escriptor, licenceado em canones pela Universidade de Coimbra e socio da academia Real das Sciencias.
D. ÁLVARO ABRANCHES DA CAMARA - Escultura de J.P. Lima Santos

N'elle viveu durante alguns annos o elegante chronista e primoroso escriptor Fr. Luiz de Sousa. Na egreja de S. Paulo estão erectas duas irmandades - a de Nossa Senhora da Assumpção e a de Nossa Senhora do Rozario que em tempos passados possuio objectos de culto de grande valor, taes como : Corôas d'ouro com diamantes um riquissimo pallio com seis varas todas de prata, quatro castiçaes do mesmo metal e uma peanha também de prata em cima da qual era collocado em dias de festa o Santissimo Sacramento.
Este magestoso templo que se achava já bastante arruinado, está sendo actualmente reparado por um troço de operários sob a direcção do illustre conductòr de obras publicas, sr. Liberato Telles de Castro e Silva. Estas reparações foram mandadas fazer pelo governo, para o que muito contribuiu o nosso amigo e conterrâneo sr. Antonio Dionizio Parada.
O convento e quinta que é bastante pittoresca pelo copado do seu arvoredo secular, foi, pela extincção das ordens religiosas em 1834, vendido ao sr. Palyart, que o deixou por herança ao seu actual proprietario sr. Oliveira Ferraz.
Proximo, no amplo campo de S. Paulo, fica a praça de touros, construida em 1843.
A egreia de S. Thiago – matriz - de cuja fachada publicamos uma gravura é de fabrica antiquissima pois foi mesquita de mouros e reedificada no seculo passado por mandado do infante D. António, irmão de D. João V. E' templo de uma só nave. O tecto da capela-mór é todo de abobada de pedra em estylo manuelino. Fernão Mendes Pinto, o brilhante auctor das Peregrinações, está aqui sepultado.
ERMIDA DO ESPÍRITO SANTO

ALMADA – CONVENTO DE S. PAULO



ALMADA – EGREJA DE S. THIAGO

Almada possue bastantes ermidas, dessiminadas pelo concelho, e na do Espirito Santo, que é muito antiga, encontram-se as magnificas imagens que durante bastantes annos sahiram em domingo de Ramos, processionalmente pelas ruas da villa.
A casa da camara é um edifício de dois andares de boa apparencia. Foi construida no anno de 1793. N'ella estão installadas, além da camara, o tribunal judicial e cadeia. Possue uma alta torre com relógio, d'onde se desfructam soberbos panoramas, O relogio foi doado à camara d'este concelho por D. Maria I.
Tem Misericórdia instituída no século XVI.
Do Castello, situado no ponto mais alto da villa, descobrem-se vastos horisontes. A sua fundação data do anno de 1500.
E' muito sentida n'esta villa a falta de um hospital de caridade. Em 1892 constituiu-se aqui uma grande commissão afim de se levar a effeito a fundação d'um hospital. A' frente d'esta commissão, que pouco fez, figurava o ex-deputado por este circulo, o sr. Jayme Arthur da Costa Pinto, alma nobre, coração d'ouro, a quem Almada deve parte dos seus melhoramentos.
Em Almada realisam.se nos dias 23, 24e 25 de junho de cada anno, sumptuosas festividades a S. João.
Tem por brazão d'armas uma torre coroada sobre penhascos. No antigo regimen enviava deputados às cortes os quaes tinham assento no sexto banco.

Nos seus arredores que são fertilissimos encontram-se muitas fabricas de cortiça que empregam centenas de operarios, e a importante fabrica de moagens a vapor, systema austro-hungaro, pertencente á firma commercial Antonio José Gomes & Commandita.
Na Piedade, onde se feriu a memoravel batalha entre cartistas e miguelistas em 23 de julho de 1833, vespera da libertação da capital ergue-se o riquissimo palácio do sr. António José Gomes, que possue salas deslumbrantes, cujas pinturas a fresco rivalizam, na opinião de críticos eminentes, com as do palácio da Ajuda. Um pouco distante da Piedade fica a aprasivel quinta do Alfeite que pertenceu ao valente condestaveÌ D. Nuno Alvares Pereira, actualmente propriedade da casa Real. O seu palacio foi mandado construir em 1857, pelo fallecido monarcha D. Pedro V de saudosa Memória. A praia do Alfeite, uma das melhores da margem sul do Tejo, é muito frequentada por banhistas pela limpidez das suas águas.

A uma légua ao sul de Almada fica a freguezia de Caparica, importante centro vinhateiro, calculando-se a sua área em 20 kilometros, em linha recta, no seu maior comprimento, de N. a S., e de 15 kilometros, de O. a E. na sua maior largura.
N'esta populosa freguezia, fica, á beira-mar, o lazareto construído em 1867 sobre as ruinas da fortaleza de S. Sebastião de Caparica, que é digno de ser visitado pelos seus vastos e confortáveis alojamentos.

D'entre os vultos mais illustres de que Almadaa tem sido berço, sobresahem pelo seu talento e virtudes: Diogo Paiva de Andrade, poeta quinhentista e elegante prosador; D. Leonor de Mascarenhas, que fôra dama da rainha D. Maria, segunda esposa de D. Manoel, e que falleceu em Madrid com cheiro de santidade: Dr. José de Almeida, medico distincto; Frei Silvestre de Almada, auctor de varias obras religiosas; Dr. José Xavier Coutinho, mavioso poeta e jurisconsulto; Antonio Adelino Amaro da Silva, brilhante romancista; Eduardo Tavares, valente jornalista e escriptor; José Elias Garcia, grão-mestre da maçonaria, coronel de engenheiros, distincto jornalista, lente da eschola do exercito e chefe do partido republicano portuguez; Dr. Oliveira Feijão, illustre médico, professor de clinica cirurgica na eschola Medica de Lisboa; Dr. Bento Manoel da Costa Vaz, meretissimo juiz de direito da comarca de S. João da Pesqueira; e muitos outros que igualmente honram a terra onde nasceram.

Terminamos, agradecendo aos ex.mos srs. dr. Luiz Júdice Pargana, António Augusto de Figueiredo Feio e José Gabriel Holbeche a amabilidade que tiveram em nos ceder as photographias com que illustramos este artigo.
Almada, abril de 1897
Luiz de QUEIROZ.
 

Transcrito por
RUI M. MENDES
Caparica, 31 de Julho de 2011

ANEXO: Mapa de Almada de 1904