segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Arquivo de Almada (2): O Lazareto de Lisboa em 1897, por António Frazão


Divulgo mais um interessante artigo publicado em 1897 no Semanário Branco e Negro, desta vez da autoria de António Frazão. Trata-se de uma descrição muito pormenorizada e bem documentada fotograficamente do antigo Lazareto de Lisboa, situado como se sabe junto à Torre Velha de S. Sebastião da Caparica.
As imagens são as do texto original (embora não na mesma ordem) e incluem uma inédita fotografia da Capela do Cemitério do Lazareto edificada com o cemitério em 1886 e que, estando em ruínas, foi desmantelada para os seus materiais serem aplicados na construção da Capela do Cemitério do Monte de Caparica em 1935.
O texto trás a ortografia original, por isso não estranhem os «erros ortográficos» ...

«Lazareto de Lisboa», Branco e Negro. Semanário Illustrado, N.º 60, Ed. 23.5.1897

LAZARETO DE LISBOA – Doca; recinto dos armazéns; lazareto velho

«Tinha ficado em Lisboa para, no dia seguinte, acompanhar o meu amigo S. n'uma visita ao lazareto, onde ha perto de oito annos sou empregado.
Pelas 10 horas da manhã, bem almoçados, chegavamos a Belem e ali embarcámos no bote do Cegueta, do Porto Brandão. O meu companheiro, a principio receioso da travessia em catraio, foi-se pouco a pouco animando e a breve trecho tinha-se habituado ao balouçar cadenciado do barquito, que seguia ligeiro, impellido pela aragem fresca, mas agradavel, do norte.

LAZARETO DE LISBOA – Vista geral do lado do Tejo

A' medida que nos approximavamos, iam-se tornando cada vez mais distinctas as feições do lendario monstro, besuntado a ocre, morbidamente reclinado sobre as verdejantes collinas onde outrora existiu a fortaleza de S. Sebastião, da Torre Velha, monstro hoje escasso de forças, mercê dos repetidos ataques de que tem sido alvo, sem de todo o derrubarem, espantalho dos viajantes, dizem, e terror do commercio, mas não poucas vezes, e ainda em epocha que não vae longe, quando as barbas do visinho fumegam, por todos considerado seguro baluarte erigido na margem sul do Teio para defender o paiz das invasões epidemicas.
Atracámos ao caes de Porto Brandão e tomámos pelo aterro que substituiu a ponte de madeira, que d'aquella povoação dava passagem á parte do lazareto onde se acham situados, á beira-mar, os armazens-estufas para a desinfecção de mercadorias, quer brevemente, serão desembarcadas n'uma solida ponte de ferro, não ha muitos mezes acabada de construir.

LAZARETO DE LISBOA – Armazém de desinfecção pelo acido sulfuroso

O caes, a pequena distancia, para o qual abrem tres portões de ferro que dão ingresso aos armazens e dependencias da alfandega, é pouco espaçoso para o actual movimento. As escadas de pedra, acanhadíssimas, torna-se, por vezes, difficil a atracação dos botes e fragatas que a miude entram na doca, o que é devido a ter esta uma abertura, exposta ao norte, desproporcional ás suas dimensões, não offerecendo por esse facto o abrigo que seria para desejar.
LAZARETO DE LISBOA – Avenida e chalet da vaccina

No redente de leste, do caes, acha-se uma pequena barraca, convenientemente adequada ao serviço de vigilancia, d'onde os guardas de saude podem observar o que se passa em qualquer ponto do caes ou do aterro. Em dias de movimento de passageiros e de bagagens o serviço de policia é coadiuvado pelas praças do destacamento estacionado no lazareto.
Do lado opposto á referida barraca, ao sopé de uma rocha elevada, existe uma casa, tendo no seu maior comprimento seis janellas e uma porta, de um só pavimento, onde durante muito tempo esteve a secretaria e o archivo que, ultimamente, se acham installados, aquella nas proximidades do parlatorio, e este em parte do amplo armazem de arrecadação de mobilia mandado edificar no antigo terraço das quarentenas.
Deixámos o caminho que circumda, do poente, o lazarelo, e sóbe ao quartel do destacamento, e entrámos no recinto chamado dos armazens, onde se acham installadas, além da delegação aduaneira e respectiva casa do despacho, as estufas para desinfecção de bagagens pelo acido sulfuroso, as de Geneste & Herscher para desinfecção pelo calor, e as ventoinhas applicadas nas beneficiações por ventilação mechanica.


LAZARETO DE LISBOA – Estufas Geneste & Herscher

Os melhoramentos introduzidos no serviço de desinfecção e de reverificação de bagagens datam de poucos annos.
E Para se avaliar dl sua grande importancia basta dizer que chegando muitas vezes ao lazareto, afim de serem beneficiadas, bagagens de trezentos e mais passageiros, no curto espaço de seis ou sete horas são aquellas descarregadas, abertas, desinfectadas e verificadas pela alfandega, levando-as os seus donos para Lisboa no mesmo dia em que desembarcam, o que lhes evita incommodos e despezas.
Uma escadaria ladrilhada á moderna conduz dos armazens ao lazareto velho, estabelecido na antiga fortaleza de S. Sebastião, e ao local onde foram construidos os edificios vulgarmente conhecidos por quarentenas.
A ascenção é longa, porém, a escada suave, vendo-se, nos pontos em que tem mais largura, alguns alegretes artisticamente matisados de flores.
A' medida que subiamos, o meu amigo soltava exclamações admirativas, causadas pela belleza do panorama, que se torna verdadeiramente encantador observado do terreiro do lazareto velho. N'este mesmo plano fica a enfermaria de doenças suspeitas e a pequena capella do martyr S. Sebastião, cuja imagem, primorosamente esculpturada em madeira do Brazil, se ostenta, presentemente, na capella do parlatorio reservado aos visitantes.
A enfermaria de doenças suspeitas, a que tambem dão o nome de hospital, acha-se completamente isolada das outras dependencias do estabelecimento. E' um edificio que satisfaz cabalmente ao fim a que é destinado. Foi alli que, ha annos, conservaram incommunicavel, durante uns dias, o professor José Julio Rodrigues, fallecido da doença que motivou a sua estada no lazareto e sobre cuja natureza se suscitaram duvidas.
Encontra-se, ao sahir do lazareto velho, um grupo de chalets de madeira, revestidos de argamassa, onde cumprem os impedimentos os carvoeiros e estivadores vindos de bordo das embarcações fundeadas no quadro das quarentenas.

LAZARETO DE LISBOA – Edifício das quarentenas

Um caminho estreito, chamado da ronda, cerca o vasto recinto das novas edificações, dispostas em fórma de leque, no vertice do qual está a cosinha, que, pelas rodas, faz chegar a comida ao interior das quarentenas. O magnifico fogão, que custou mil libras esterlinas, podendo n'elle cosinhar-se para mais de mil hospedes, consta-me não ter rival áquem dos Pyrineus.
Destinaram a sala de visitas o pavimento superior á cosinha. Denominam-n’o parlatorio. E' de fórma semicircular e illuminado por vinte e uma bem rasgadas janellas, fronteiras a outras tantas d'onde os quarentenarios recebem as pessoas que os visitam.
Ao centro d'esta sala está a capella da Senhora do Bom Successo e n'ella se celebra missa, aos domingos e dias santos, que póde ser ouvida pelas pessoas impedidas em qualquer das quarentenas.
Fomos ao interior d'estas ultimas, cada uma das quaes constitue uma não pequena hospedaria, e o meu amigo teve occasião de ver de perto ser inexcedivel o asseio e magnifica a disposição dos utensílios; não obstante, achou muitos d'elles inferiores e pouco em harmonia com as taxas pagas pelos quarentenarios.
As salas de jantar, os quartos e as camaratas recebem luz a jorros, sendo convenientemente arejados.
Os pateos interìores ajardinados com gosto; os exteriores, deitando sobre o rio, são uma distracção para os quarentenarios, pela vista surprehendente que d'alli se disfructa, fazendo-lhes passar quasi despercebidas as horas de captiveiro a que são obrigados pelas prescripções sanitarias.


LAZARETO DE LISBOA – Capella do cemitério

Antes de nos dirigirmos ao cemiterio, que nada tem de notavel a não ser o magnifico ponto de vista, fomos á lavanderia quer em ponto pequeno, é das melhores que existem, honrando muito o empregado que dirigiu os trabalhos e o serralheiro mechanico que os executou.
Annexo ha um pateo onde foram collocadas capoeiras, sempre providas de excellentes gallinaceos e não inferiores palmipedes.

LAZARETO DE LISBOA – Caes
Um pouco mais adeante entra-se, por um portão de ferro, para o guartel do destacamento que, embora o considerem pouco espaçoso sempre dá alojamento a mais de cem praças.
Depois de termos tomado o folego junto á casa de arrecadação do material para extincção de incendios, dispusemo-nos a subir a ingreme ladeira que dá accesso ao cemiterio, o mais recente de não sei quantos que existem na inactividade e eram, como este é, exclusivamente destinados aos fallecidos sob impedimento.
A impaciencia em admirar um dos mais soberbos panoramas obrigou-nos a ser rapidos na ascenção e foi fatigadíssimos que lográmos chegar ao banco collocado no jardimzito proximo ao cemiterio.
D'aquella eminencia tudo que nos cerca constitue um deslumbrante quadro, que os olhos procuram abranger com sofreguidão. Lá ao longe, na nossa frente, desenrola-se a esplendorosa tela, em que percorremos, n'um relance, a margem do norte, desde os cachopos que servem de couraça á cidadella de Cascaes até aos pesados torreões do Terreiro do Paço.

LAZARETO DE LISBOA – Sala de jantar de I.ª Classe

DR. ANTÓNIO HOMEM DE VASCONCELLOS
Inspector do Lazareto
Junto a nós, á direita revestida de vegetação luxuriante. a quinta da Azenha, hoje dependencia do lazareto, terminada ao nascente pelo valle que corre da Fonte Santa a Porto Brandão; á esquerda os fertilissimos vinhedos da Chanoca e da Paulina, expondo os esmeraldinos pampanos ao calor vivificante de um sol primaveril.
N'uma perspectiva caprichosa serpeia a estrada, orlada de eucalyptos, destacando-se d'um fundo de verdura o elegantissimo chalet da vaccaria (sic).
No extremo norte da ridente avenida, o pittoresco agrupamento das edificações do moderno lazareto, telhados marselhezes, de encarnado vivo, apresentando o aspecto de amphitheatro, airosamente dispostas quasi á beira da rocha sobranceira ao Tejo, em que, de onde em onde, brilha a alvura das velas dos barquinhos que fazem carreira para Belem.
Custou-me arrancar d'ali o meu amigo, embebido como estava na contemplação do singular espectaculo.
Depois de jantarmos, S. quiz regressar a Lisboa, por Cacilhas, pois não teve coragem, ao ver refrescar o tempo, de se aventurar a nova viagem até Belem.
No trajecto, em tipoia, pediu-me varias informações relativas á organisação do lazareto.
Disse-lhe quanto sabia, não occultando que, devido ao talento e superior tacto administrativo do sr. dr. Antonio Homem de Vasconcellos, inspector d'esta repartição sanitaria desde 1879, se deve a boa ordem que preside a todos os serviços, como tiveram ensejo de verificar o dr. Proust e outras summidacles scientificas que, em diversas epochas, teem visitado o lazareto, que classificam de estabelecimento modêlo e um dos primeiros d’ Europa e da America.
A competencia do sr. dr. Antonio Homem evidenciou-se, sobretudo, na maneira acertada por que tem gerido a hospedaria do lazareto (a cuja arrematação não concorreram particulares receiosos de perder dinheiro), da qual o inspector d'aquelle estabelecimento, por uma sabia administração, tem conseguido tirar importantes lucros para o estado.
Como empregado subalterno seria ousadia da minha parte referir-me com elogio a um superior, se o que acabo de expôr não fosse um extracto, embora ligeiro, do muito que se diz em abono de tão zeloso quanto prestante funccionario.
Caparica, 26 de abril de 1897.
ANTÓNIO FRAZAO.

Transcrito por
RUI M. MENDES
Caparica, 1 de Agosto de 2011

ANEXO: Mapa da zona do Lazareto da Torre Velha, no Porto Brandão, 1904

 

5 comentários:

  1. Muito, muito interessante este artigo sobre o Lazareto. Descobri este local fantástico no ano passado e como são tão escassas as informações sobre o mesmo, este artigo ainda se torna mais precioso.
    Parabéns pela pesquisa.

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  2. Obrigado pelas palavras ... em Almada este é um dos locais que merecia ser recuperado ... esperamos que tal seja possível num futuro mais ou menos distante ...

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  3. arquitecto do lazareto novo? data de construção?

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  4. arquitecto do lazareto novo? data de construção?

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    1. O Novo Lazareto da Torre Velha começou a ser planeado em 1858, sendo o projecto inicial, de valor superior a 500:000$000 rs, da responsabilidade do Eng.º António Joaquim Pereira (Archivo pittoresco, n. 33 Set.º 1866, p. 260). De acordo com a conta geral da obra foram empregues na construção dos «Edifícios quarentenários, alicerces e terraplenagens, caes e aterro, acessórios, hospedaria e quartel, caminhos, armazéns e bagagens, lavandaria, hospital, cemitério e reparações (a) Somma 519:788$154 rs». Só em 1867 foram iniciadas as obras do novo edifício, concluídas em 1869. Em 1868 constrói-se uma nova doca, anteprojecto do Eng.º D. António de Almeida, no valor de 21:511$208 réis, e em 1875 construiu-se na doca do Lazareto a primeira ponte-cais de madeira, cujo projecto foi elaborado pelo engenheiro Cândido de Moraes. Em 1880 construiu-se nova ponte de madeira, a qual mais tarde foi substituída por outra de estacas metálicas. No mesmo ano os taludes foram regularizados, enrelvados e plantados, dando-se saída às águas das chuvas por valetas empedradas e canos argamassados, e construindo-se um muro de suporte e outras pequenas obras. Foi este projecto do condutor de obras almadense Francisco Liberato Teles Castro da Silva (ver figura acima), que importava na quantia referida de réis 39:760$000 (Adolfo LOUREIRO – Os portos marítimos de Portugal e ilhas adjacentes, Vol. III, Parte I, 1906). Será Liberato Teles, funcionário do Ministério das Obras Públicas (M.O.P.), a planear e conduzir a maior parte das obras realizadas no Lazareto entre 1880 e 1900, que incluíram, conforme documentação do M.O.P., além das acima mencionadas: - a construção de um novo Cemitério e Capela (ver imagem acima), em 1886; - construção de uma ponte, em 1893/1894, no valor de 5:011$710; - o abastecimento de água (a partir de uma mina situada na Fonte Santa), em 1893/1894, 5:549$905; - obras de conservação do edifício, em 1893/1894, 4:861$855; - a muralha de comunicação com o Porto Brandão, em 1895, 5:752$000; e - a reparação de estragos do temporal de 1895, 10:331$335 rs.
      Fonte: Rui Manuel Mesquita Mendes, «Obras públicas nos concelhos de Almada e Seixal (1640-1910) : Uma síntese histórica, artística e documental preliminar», in Actas do 2.º Encontro sobre o Património de Almada e Seixal. Almada : Centro de Arqueologia de Almada, 2014.

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